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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Conexões

NOTA: Esse foi um depoimento da minha amiga Laise que recebi no Facebook. Achei tão lindo que ñ pude resistir e tive que postar aqui =)



 
Curioso como tudo se interliga. Há uns anos atrás eu tive a oportunidade de escolher um fotógrafo para fazer um trabalho na faculdade, e meu trabalho foi sobre Julia Margaret Cameron. Nesse trabalho, pesquisei feito louca não só a biografia dela, como também sobre a Irmandade Pré-Rafaelita, de que ela fazia parte, e sobre os temas que ela fotografava (Ophelia, mito arturiano, Alice Liddell, Beatrice...) e nessa brincadeira muitas pontas desdobram-se, Lady of Shallot, um poema escrito por Tennyson, que era da Irmandade, cantado por Lorreena McKennitt, e mais tarde Emilie Autumn também fez uma versão. No meio do processo, em que eu descobria que milhões de coisas que eu amava e me identificava tinham tudo em comum e estavam interligadas, descobri que Julia Cameron era tia de ninguém menos que Virginia Woolf.
O trabalho seguinte, da mesma matéria, foi sobre um filme e eu escolhi The Hours. As interligações jamais terminavam, em que Virginia misturava-se com Nimue e com Ophelia na minha cabeça... e todas elas me lembravam Mona Mayfair. Foi nessa época que eu fiz o fake de Mona Mayfair que me levou a no futuro criar a Congregação dos Articulados.
Também associo muito a figura de Laura Brown com Clarice Lispector, quando a segunda fala sobre abandonar aquilo em você que faça mal a você e aos outros, e com isso cortando a própria força. "Ouça: respeite o que é ruim em você. Respeite sobretudo aquilo o que você acredita ser ruim em você. Não tente fazer de si mesma uma pessoa perfeita, não copie uma pessoa ideal, copie você mesma. Esse é o único meio de viver."
Tudo se liga. E Florence... Florence se parece fisicamente com Virginia, você não acha? Algo na forma do nariz e do maxilar. E What The Water Gave Me é como que o hino de todas essas mulheres trágicas, tentando encontrar a si mesmas e se perdendo com tanta frequência em seus labirintos internos. Mas -- Never Let Me Go, I'm not giving up, I'm just giving in.
 

sábado, 26 de novembro de 2011

O que a água me deu

Nota: Esse é um texto do Marcos, Flow apaixonado pela Florence como todos nós. Esse texto ele escreveu inspirado em What the Water Gave Me. Aqui estou só reproduzindo o post original =) Enjoy it \o

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Para Ofélia.

- Quem é você? – Ela me perguntou naquela noite.

- Sou sua consciência. Seu anjo da guarda – respondi.

Mas talvez essa não seja a melhor maneira de começar essa estória...

Era uma vez uma garota que já não era menina, tampouco era mulher. Ela não era, pois vivia fora do tempo, no meu tempo, e nem mesmo eu sei como conseguiu tamanha proeza. Seu nome? Ela tinha vários. Alice, Helena, Laura, Maria, Joana... Mas vamos chamá-la de Ana. Só Ana.

Ana viveu boa parte de sua vida dentro das regras, ela era o orgulho de seus pais e suas mães. Só tirava boas notas quando esteve na escola, falava várias línguas, tocava alguns instrumentos e ainda fazia trabalhos voluntários.

Pessoas são influenciáveis. Sim, todas elas. Mas não Ana. Ela tinha sua própria opinião. Ouvia novas idéias, registrava, pesquisava, estudava e decidia. Portanto, estão errados aqueles que disseram que foi influencia de amigos. Não foram os amigos. A semente do mal veio com o vento e se instalou em seu coração puro. A culpa é do vento.

“O que está acontecendo com você?” seus pais e mães perguntavam.

“Eu só quero mudar” ela respondia.

E ela mudou. Mudou seu guarda roupa, usou os mais excêntricos cortes de cabelo e todas as cores de maquiagem. Mudou seu estilo de música, mudou de casa, de carro, de nome, mas ainda era Ana. Só Ana.

Eu já estava perto dela nesse tempo. Algumas das escolhas que ela fez foram sussurradas por mim. Eu a fiz conhecer as pessoas certas e procurar nos lugares certos. Ela se tornou uma amante cruel, imperfeita... Foi quando clamou por mim pela primeira vez.

Não a respondi de imediato, é claro. Ela precisava se alimentar.

Ana sugava segredos e não os dividia. Quando estava pesada o suficiente, quando enxergava em vermelho e sentia cheiro de maçãs pela manhã eu me fiz visível.

- Quem é você? – ela me perguntou naquela noite.

- Sou sua consciência. Seu anjo da guarda.

Ana acreditou em mim.

- Você sabe? – Ela perguntou, só pra ter certeza.

- De tudo.

Nos arrastamos pela cidade. Ela estava muito pesada em meus braços, e quando não conseguia andar eu a carregava nas costas.

- É aqui – sussurrei, gentilmente.

O sol estava nascendo e seu reflexo brilhava nos olhos de Ana e no rio que rugia a alguns metros abaixo dela.

- Não há perdão – ela falou baixinho. Eu concordei com um gesto.

A gravidade machucava.

- Você sabe o que fazer – eu disse.

Então ela escorregou, e todo o peso que ela carregava a puxava cada vez mais para baixo na água gelada.
Primeiro sentiu o cheiro das maçãs, depois ouviu a água invadir seus pulmões.  Ela achou que eu era o sol brilhando através da morte, dizendo adeus enquanto todos os segredos escorriam de seu corpo.
*
What the Water Gave me


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escrito por Marcos Wesley